É noite. A casa está em silêncio. E de repente ouve-se um som vindo do quarto do vosso filho — um ranger surdo, desconfortável de ouvir. Se já passou por isto, sabe exactamente do que estamos a falar.
O bruxismo infantil — o ranger ou apertar dos dentes durante o sono — é muito mais comum do que os pais imaginam. E gera muita preocupação, muitas vezes desnecessária. Mas há casos que merecem atenção.
É mesmo muito comum?
Sim. Estima-se que entre 15 a 40% das crianças rangem os dentes em algum momento da infância. Os picos acontecem tipicamente entre os 3 e os 6 anos, e depois novamente na pré-adolescência.
Na maioria dos casos, desaparece sozinho com o crescimento — especialmente quando os dentes de leite vão sendo substituídos pelos definitivos.
Porque é que acontece?
As causas não são totalmente conhecidas, mas os fatores mais associados são o stress e a ansiedade (mesmo em crianças pequenas), as alterações na dentição (durante a troca de dentes), a respiração pela boca (muitas vezes ligada a alergias ou adenóides aumentadas), e em alguns casos, parasitas intestinais — embora esta associação seja menos suportada pela evidência do que o senso comum sugere.
Quando é que não é para ignorar?
Apesar de ser comum e frequentemente benigno, há sinais que merecem uma avaliação:
- O ranger é muito frequente e intenso, todas as noites
- A criança acorda com dores de cabeça ou mandíbula tensa
- Os dentes de leite mostram desgaste visível na superfície
- A criança queixa-se de dores ao mastigar ou sensibilidade nos dentes
- Há alterações de comportamento associadas — irritabilidade, dificuldade em dormir, cansaço frequente
Estes sinais não significam necessariamente um problema grave, mas merecem ser observados por um médico dentista.
O que pode ser feito?
Em crianças pequenas, raramente se intervém de forma direta. O acompanhamento é a principal ferramenta — monitorizar o desgaste dos dentes, perceber se há causas subjacentes a tratar (como respiração oral ou stress).
Em casos mais marcados, e especialmente em crianças mais velhas, pode ser considerado o uso de uma goteira protetora para dormir — um dispositivo simples que protege os dentes do desgaste. Mas isso é sempre decidido caso a caso, em consulta.
O que pode fazer em casa
Se o seu filho range os dentes, há algumas coisas que ajudam: estabelecer uma rotina de sono tranquila, reduzir estímulos antes de dormir, verificar se há fatores de ansiedade no dia a dia — escola, mudanças na família, pressão — e falar com o pediatra se suspeitas de respiração oral ou outro problema associado.
E fale com o seu dentista. Mesmo que seja só para perceber se está tudo bem. Esse é sempre o melhor ponto de partida.

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